A MATEMÁTICA
Sempre tive muito boas notas a Matemática. Gosto da racionalidade desta área do conhecimento. Porém não sou refém dos números, porque há mais vida para além deles.
Mas a Matemática constitui um papão para sucessivas gerações de estudantes, sendo responsável pelos baixos índices de aproveitamento nos vários ciclos do sistema de ensino.Mas porquê?
O famoso matemático russo Edward Frenkel responde a esta dúvida inquietante, numa extraordinária entrevista dada à edição de ontem do Expresso Diário.
Não resisto à tentação de partilhar com os leitores a referida entrevista, pois nela encontramos resposta para a injusta "má fama" da Matemática junto da maioria da comunidade escolar.
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P-Muitas pessoas, de diferentes gerações, dizem que odeiam
matemática. Por que razão acha que isso acontece?
R-Muita gente tem uma relação traumática com a Matemática. Uma das
razões tem a ver com o facto de o ensino da Matemática, tal como é feito na
grande maioria das escolas, dar demasiado ênfase à resposta. Em vez de se
encorajar os nossos alunos a serem curiosos e a procurarem a resposta, nós
exigimos que eles a deem. O ensino baseia-se quase exclusivamente em testes e
em ver em quem é mais rápido a encontrar a resposta. E muitos sentem-se
embaraçados e inferiores porque não conseguem fazê-lo. Essa dor fica. Até podem
depois não se lembrar do incidente concreto, mas o trauma ficou lá. Por outro
lado, a escola não expõe os alunos à verdadeira beleza da matemática.
P-Porquê?
R-A maioria dos conteúdos que são ensinados nas aulas de matemática
têm mais de mil anos e isso é verdadeiramente escandaloso e seria impensável
numa aula de Ciências. Era o mesmo que continuarmos a ensinar às crianças que a
Terra é plana ou que é o Sol que gira à volta dela. Obviamente esses conteúdos
foram atualizados. Nas aulas de Literatura passa-se o mesmo. Os alunos não leem
apenas Homero, apesar de Homero ser muito importante para a Literatura
ocidental. Também leem literatura mais moderna. Então por que razão nas aulas
de Geometria só se ensina Euclides, que tem 2300 anos? Não faz sentido.
Continuamos a repetir fórmulas antigas, sem estabelecer nenhuma ponte com o
mundo atual.Em vez de se encorajar os nossos alunos a serem curiosos e a
procurarem a resposta, nós exigimos que eles a deem.
P-Para a maioria
das pessoas, a Matemática parece demasiado abstrata, sem aplicação prática.
R-Porque infelizmente são ensinadas dessa forma. Mas toda a
tecnologia que está cada vez mais presente nas nossas vidas — computadores,
internet, smartphones, videojogos... —tudo isso se baseia na Matemática. Por
trás de todas as redes sociais ou dos sites que fazem vendas online estão
algoritmos muito sofisticados. É como se fossemos escravos desses algoritmos. Por
isso, é fundamental que os compreendamos para não sermos manipulados por eles.
P-O que tem então de mudar no ensino?
R-É preciso uma revolução. Temos de preservar o sentido de mistério
e de descoberta que existe na Matemática e apresentá-la às crianças quase como
um romance policial. E tem de haver paixão por parte dos professores. Eles
próprios têm de amar a Matemática. Além disso, é fundamental mudar o currículo,
para incluir conteúdos mais modernos e relacioná-los com o mundo real.
P-O que pode
dizer para fazer a Matemática mais atraente e apelativa?
R- Em primeiro lugar, esqueçam tudo o que aprenderam na escola
sobre Matemática. Quase tudo o que vos disseram é mentira. Não é Matemática.
Imaginem uma disciplina de Arte em que apenas se ensina como pintar paredes e
onde nunca se fala dos grandes mestres como Picasso, nem se incentivam os
alunos a ir ver museus. Claro que os miúdos vão odiar e achar que é muito
aborrecido. Mas na verdade o que eles estão a odiar é a pintura de paredes, não
a arte. É o que acontece com a Matemática. 99%
das pessoas estão privadas de mil anos de conhecimento essencial e isso
é dramático. Neste momento, querer aprender matemática não é uma questão de
escolha. É uma questão de necessidade porque a Matemática está, literalmente, a
invadir as nossas vidas e nós colocamo-nos em risco ao sermos ignorantes.
P-Em que sentido?
R-A matemática é muito poderosa,
mas esse poder pode ser usado para maus fins. Um bom exemplo é a crise
económica. Os modelos matemáticos fazem parte da calamidade que aconteceu. A
culpa não é dos modelos em si, mas das pessoas que os usaram mal. Nos mercados
financeiros e em Wall Street usaram sistematicamente modelos matemáticos
desadequados porque não quiseram saber do risco, nem se interessaram em perceber
verdadeiramente como é que esses modelos funcionam. Os banqueiros e o mundo
financeiro exploraram a nossa ignorância em relação à Matemática. Bastaria um
conhecimento rudimentar de Matemática para perceber que o esquema do Madoff era
uma fraude. Mas ninguém questionou porque há uma ignorância geral. As pessoas
não sabem e, pior do que isso, têm medo de perguntar. O mesmo está a acontecer
em relação à tecnologia. E o perigo é ainda maior. Estamos a perder a nossa
Humanidade porque não percebemos como a tecnologia funciona e como podemos
ficar viciados nela.
P- Está
preocupado com o futuro?
R-Muito preocupado, mas não apenas com o futuro. Estou preocupado
com o presente. Está em curso uma reestruturação profunda do mundo e da forma
como interagimos uns com os outros e com a tecnologia e preocupa-me que as
pessoas não estejam a prestar atenção ao que está a acontecer. A Amazon, por
exemplo, faz-nos recomendações de livros e as pessoas seguem-nas, sem
questionar. Não percebem que por trás disso há algoritmos que podem ser
manipulados, tanto por questões financeiras, porque há empresas que pagam para
os seus livros serem recomendados e para outros não aparecerem, como por razões
políticas, ideológicas, para que sejam divulgadas certas ideias e não outras. Eu
adoro a tecnologia desde que esteja ao serviço da Humanidade. Mas torna-se
perigosa quando está a ser usada de forma a reduzir as nossas interações
humanas. Por exemplo, num futuro próximo, os drones vão usar um programa de
reconhecimento facial para matar pessoas que foram identificadas como alvos.
Muitos cientistas proeminentes defendem que esses sistemas sejam abolidos, mas
eles continuam a ser desenvolvidos. É extraordinariamente perigoso porque todos
os algoritmos podem ser manipulados. Se alguém substituir a lista de alvos por
outra, pode fazê-lo. Já não é só ficção científica, é uma coisa que pode mesmo
acontecer dentro de poucos anos. E, na minha opinião, a única forma de o
impedirmos é despertarmos todos para esta nova realidade e passarmos a compreendê-la
melhor. E isso passa pela Matemática.
P- Os
computadores conseguirão substituir-nos em quase tudo?
R-O responsável pela investigação e desenvolvimento da Inteligência
Artificial na Google, Raymond Kurzweil, disse publicamente que em 2045 todos
vamos poder fazer upload dos nossos cérebros para a cloud. Ele vive obcecado
com essa ideia e tem todos os recursos da Google à disposição para trabalhar
nisso e ninguém o confronta, ninguém sequer questiona. Mas isso é uma falácia.
Um cérebro não é só um conjunto de neurónios. Há uma energia que está em
movimento, não está localizada num ponto. Não é possível agarrar num humano e
transformá-lo numa máquina. É como tentar captar a essência de um ser humano
através de uma fotografia. Até mesmo na Matemática, há um elemento de
imprevisibilidade, de espontaneidade, de pureza que transcende qualquer
computador. Nenhuma descoberta matemática assenta apenas no pensamento
racional. Há sempre uma outra parte — podemos chamar-lhe inspiração, insight,
intuição, instinto que só existe em nós e que nenhuma máquina poderá
reproduzir.
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